Cauda Longa e a Cultura de Nichos
14 de março de 2016

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Salve! Eu sou Eduardo Panozzo, um dos caras responsáveis pelo selo Honey Bomb Records, e hoje vou fazer a estreia do nosso Medium. Aqui vão rolar uns textos sobre coisas que a gente quer falar, quer que os outros saibam, coisas que vivemos, pensamos, etc. O de hoje é sobre um livro que todo músico deveria ler.

Eu mesmo nunca fui muito de ler não, mas tive que sair dessa zona de conforto quando fiz meu TCC, e hoje fico até com um pouco de vergonha de dizer que eu nunca fui muito de ler. Acabei curtindo, principalmente por perceber que existem livros sobre coisas que a gente realmente gosta. Sim! Aí fica bem fácil. Achei que seria interessante indicar esses livros pra quem trabalha com música independente e corre atrás pra fazer as coisas acontecerem. Vai que ajuda alguém, né?

“A Cauda Longa”, livro do Chris Anderson, foi um desses achados. Lançado em 2006, eu fui ler só em 2014, quase 10 anos depois (hoje, exatamente). Uma distância de 10 anos pode significar um mundo completamente diferente, mas não foi o caso. Isso porque no livro ele fala de algo que estava começando e tendia a crescer, se afirmando ainda mais com a digitalização das nossas vidas: a cultura de nichos.

“Porque isso interessa pra mim? Esse não é um livro sobre música.”

Esse é um livro sobre cultura e a indústria do entretenimento. Sobre escassez e abundância. Sobre como a internet mudou tudo, e você tem que concordar: teve poucas coisas que mudaram tanto com a chegada da internet como o mercado musical. O livro aborda também outros segmentos, como o da publicação de livros, cinema, etc. Mas vou focar na música aqui, que é o que nos interessa.

Primeiro, acho importante entender que a música não é algo que a gente possa tocar, encostar, quebrar. Não é um CD, um vinil e nem uma fita k7. Essas são apenas mídias físicas usadas para que um som, gravado, possa ser reproduzido e apreciado mesmo sem a presença do artista no local.

Quando a única forma de vender a música é através desses formatos físicos, estamos lidando com a escassez. Escassez de espaço nas prateleiras das lojas de discos, por exemplo.

“A ESCASSEZ EXIGE GRANDES SUCESSOS — SE EXISTE POUCO ESPAÇO NAS PRATELEIRAS OU NAS ONDAS DE BROADCAST, O ÚNICO PROCEDIMENTO SENSATO É ENCHÊ-LAS COM TÍTULOS QUE VENDERÃO MAIS. E SE ESSA FOR A ÚNICA OFERTA, SÓ SE COMPRARÁ ISSO.”

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Outro procedimento sensato nesse caso era não arriscar.
Por ser raro, aquele espaço era caro, e devia ser preenchido com o que tinha a capacidade de vender mais. Isso fazia com que as gravadoras não ficassem muito afim de lançar um material um pouco mais “diferente”. E é claro que se elas não iam lançar, essas músicas nunca chegavam a ser gravadas, pois os estúdios eram, na sua maioria, delas. Pensa quanta música interessante deixou de existir por causa disso.

Mas essa era a lógica. Assim foram produzidos os maiores hits do mundo até hoje, e nunca se vendeu tanto de um mesmo CD, o que talvez nunca mais aconteça. Isso porque, na internet, o que rola é a abundância. O espaço não é limitado, como nas prateleiras, e todos podem produzir e colocar as suas músicas à disposição do mundo, por mais bizarras que elas sejam.
Isso não é maravilhoso?
Sim, isso é.

E mais maravilhoso ainda é saber que alguém no mundo vai querer ouvir as suas músicas, vai amar elas, compartilhar, etc. Por mais bizarras que elas sejam.

“A TEORIA DA CAUDA LONGA PODE SER RESUMIDA NOS SEGUINTES TERMOS: NOSSA CULTURA E NOSSA ECONOMIA ESTÃO CADA VEZ MAIS SE AFASTANDO DO FOCO EM ALGUNS HITS RELATIVAMENTE POUCO NUMEROSOS (PRODUTOS E MERCADOS DE TENDÊNCIA DOMINANTE), NO TOPO DA CURVA DA DEMANDA, E AVANÇANDO EM DIREÇÃO A UMA GRANDE QUANTIDADE DE NICHOS NA PARTE INFERIOR OU NA CAUDA DA CURVA DA DEMANDA. NUMA ERA SEM AS LIMITAÇÕES DO ESPAÇO FÍSICO NAS PRATELEIRAS OU EM OUTROS PONTOS DE ESTRANGULAMENTO DA DISTRIBUIÇÃO, BENS E SERVIÇOS COM ALVOS ESTREITOS PODEM SER TÃO ATRAENTES EM TERMOS ECONÔMICOS QUANTO OS DESTINADOS AO GRANDE PÚBLICO”

Ela se parece mais ou menos com isso.
Chris Anderson definiu 3 forças da cauda longa, que explicam um pouco sobre essa nossa realidade. Vamos a elas:

1 — Democratização das ferramentas de produção;
Hoje em dia é muito mais fácil gravar um álbum com uma qualidade foda do que no final dos anos 90, por exemplo. Muito, mas muito mais fácil. E mais barato também. Os home studios são uma realidade, grandes álbuns estão sendo gravados dentro de quartos.
Não só está mais fácil construir seu próprio estúdio, como está mais fácil também aprender a como operar os programas e equipamentos necessários. Viva os tutoriais do youtube!

2 — Democratização das ferramentas de distribuição;
Você tem ideia de como era difícil gravar um álbum, e colocar ele dentro de uma loja, ou na programação das rádios, pra que as pessoas pudessem ter acesso a ele? Hoje, com alguns clics, colocamos tudo no Bandcamp, Soundcloud, e no mais acessado de todos quando o assunto é música, o Youtube.
Até os serviços de streaming como Spofiy, Deezer, Google Music e Apple Music, um pouco mais chatos e complicados de entrar, nem são tão complicados assim.

3 — Ligação entre a oferta e a procura.
Vamos supor que eu sou um cara brasileiro que faz música instrumental, eletrônica, gótico-psicodélica com influências da cultura japonesa, e que você é uma menina da Austrália que curte exatamente esse tipo de som. É bem provável que você me encontre.
Isso graças a blogs especializados, sistema de indicações, palavras-chave, e o famoso Google. Antes da internet a história seria outra. Talvez através de uma revista, ou de um amigo que viajou e voltou cheio das novidades pra contar, mas seria bem mais complicado.

Lendo esse livro eu percebi como é tudo bem mais favorável pra que as coisas aconteçam do que era uma vez, e que não temos do que reclamar.

E lembre-se: isso foi escrito em 2006. Dez anos atrás.
Hoje a realidade é ainda mais interessante pra quem trabalha com música independente. Por mais difíceis que as coisas sejam, elas talvez nunca foram tão fáceis. Claro, essa facilidade toda faz com que a quantidade de artistas disputando a atenção do público com você aumente. Seu som tem que ser interessante e se sobressair.

Tente entender em qual nicho você se encaixa, ou se talvez você está ajudando a criar um novo. Depois que se entende pra quem a gente está produzindo, fica mais fácil de encontrar esse público, e aí é só alimentar ele com tudo aquilo que ele mais quer: você e o seu som.

Quem quiser se aprofundar mais no assunto, pode ver o doc “PressPausePlay”, logo aí em baixo. Além de ler o livro “A Cauda Longa”, é claro!


“PressPausePlay” é um doc muito foda sobre a revolução digital x cultura x arte.

Eras isso.

Valeu a atenção e espero que o texto tenha alguma utilidade pra ti. Até mais!

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